quinta-feira, setembro 16, 2010

Fuzeta, como se não houvesse tempo...

No inicio dos anos 80 a malta da Música Popular Portuguesa ia muito para a Ilha da Fuzeta acampar. Eu cheguei a ir também e lembro-me de, entre a chegada de comboio à vila e a partida de barco para a ilha, de encontrar o Zeca num bar, talvez o Escandinávia Bar…

Recordo-me dele comentar que estava a começar a trabalhar num disco novo, o que viria a ser o “Galinhas do Mato”.

Recordo-me de como ali ficávamos, na ilha, como se não houvesse tempo…

( encontrei este vídeo promocional do disco “Galinhas do Mato”, do tema “Escandinávia Bar” que, embora retrate a Fuzeta da época, foi filmado em Setúbal, talvez por economia de custos ).



Se o gageiro de outras eras
Subisse de novo à gávea
Diria p´rá marinhagem
Já se avista a "escandinávia"
Senhora do Bom Sucesso
Diz-me onde irei almoçar
Não quero sola de molho
Tenho as tripas a estalar
Entra naquele fiorde
Onde a terra encobre o mar
Se queres comer como um lord
no Escandinávia-bar
Sem rendas de mesa fina
O choco é bicho moderno
Naquele lugar fraterno
Goza de geral estima
Já vai passando à história
O tempo em que não entrava
Um pescador no café
Onde a finesse abancava
Nesses tempos de castigo
(Só de pensar estremeço)
Dizia cá pra comigo
nem tudo o que digo penso
Ali não entra o Tenreiro
Nem cavalos de alta roda
Mas já lá vi um torneiro
Beber whisky com soda
À puridade vos digo
Desde a noite ao romper d´alva
Comi uns chocos com tinta
Vi um búzio a bater palmas
Digo tudo quanto é franco
Em prol da sardinha assada
Vi rebentar as costuras
De um fulana alentada
Por isso não te retenhas
Se tens pressa de chegar
Senhora do Bom Sucesso
Rumo ao Escandinávia-bar

quarta-feira, junho 09, 2010

Cartões da Carris

A semana passada estive a trabalhar no Museu da Carris e sabia que no meu “baú digitalizado” existiam uns cartões de família da Carris. São do meu avô paterno Carlos Eugénio Moitinho de Almeida e de Isidoro Pinto Moitinho, irmão da minha bisavó paterna Isabel Pinto Moitinho, portanto tio-avô do meu pai.
Cá estão eles :)




segunda-feira, maio 10, 2010

A partir de agora passam a encontrar-me mais vezes no facebook ( Ana Moitinho ), mas vou vindo aqui de quando em quando. Até breve.

Mais um projecto do Mário :)


Seria óptimo que para o ano esta ideia estivesse a funcionar.

O que o Mário também deseja é “arockalhar” o Pirilampo com uma campanha feita pelos Xutos ou os Tara Perdida. O Pirilampo podia mesmo ter uma guitarra. Bem, é mais uma sugestão do meu rapaz :)

E a campanha deste ano começou ontem e aceitam-se encomendas para pirilampos (2,00€) e pins (1,00€). Venham elas !

domingo, abril 18, 2010

Quando eu era pequenina...










Certamente 1967/68.

Tempo de namoro e aventura







A minha mãe ( e na primeira também o meu pai ) :).
Anos 60 , antes de 66, claro.

Pausa para fumar

O meu pai :)

sábado, abril 17, 2010

Ana , a terrível


Talvez 1975. Por esta altura, passei por uma fase cheia de requintes de malvadez.
Nem é bom lembrar !

Em Santa Luzia , Viana do Castelo...


... com a Custódia , nossa empregada ( que a minha mãe gostava de vestir sempre na moda ), que estava de férias connosco na Casa da Saramaga ( da minha avó Adelaide ), em Távora, Arcos de Valdevez.
Este foi um dia de passeio. Talvez, Verão de 1970.

Eu , de dama de honor ...


... no casamento da minha irmã Maria do Carmo e António.

Eu sou a mais pequena , do lado direito :)

Era muito pequena mesmo , teria dois para três anos , seria 1968/69 , creio , mas lembro-me bem da birra que fiz a seguir à cerimónia , que decorreu na Igreja de Santo António no Estoril. À espera dos noivos estava uma “charrete” que os levaria até ao local do copo de água , o Hotel Londres, sítio do qual guardo tantas memórias boas das temporadas que ali passei , sobretudo de Verão.
Mas quem me convencia a subir para a “charrete” ? A sensação de ser conduzida por cavalos levou-me a uma grande berraria e pranto , mas parece que lá acabei por ceder...

Gostava mesmo é que o Antoninho me desse uma cópia em DVD do vídeo da cerimónia até porque fotos também só tenho esta :(

Irmãos



Tróia , Verão de 1973.

Hoje é dia de “baú” :)


Esta foto foi tirada numa gala da SPA no Casino Estoril, em 1995, na qual o Jorge Palma estreou a canção “ Quem és tu de novo “ que viria a registar em disco apenas em 2001.
Que ar tão enternecido ... foi uma época de paixão , não é verdade Luis ? :)

quinta-feira, abril 08, 2010

Um convite “simpático”

Hoje a minha querida amiga Zézinha ligou a desafiar-me para ir com ela à praia este sábado. Um convite simpático, não é ? Ora vejamos ...

“Queres vir comigo à praia no sábado? É que me apetece imenso ir bronzear as banhas, mas não gosto de ir com a XX porque ela é muito magrinha e elegante“.
Que simpatia! Não gosta de ir com a XX, mas aqui com a Moitinho gosta. Claro que gosta. Tem banhas que ela não tem e fá-la sentir-se o suprasumo da elegância ( que a bem dizer é-o naturalmente ).
O que vale é que à Zézinha perdoo tudo e não me importo nada de ser a razão do seu bem estar :/
Quanto às banhas, elas cá andam, mas não me impedem de ser quem sou e de fazer o que me der na real gana :)
E praia, sol, mar, parece-me sempre bem !

terça-feira, março 30, 2010

Isto de já ter passado os 40 tem que se lhe diga...
É preciso ir ao médico para que alguém me diga que tenho uns bons seios :)
Dado que a circunstância tinha a ver com uma mamografia e uma ecografia mamária, o sentido da palavra é o que significa, literalmente :-»

Altas perspectivas :)












Da Gulbenkian à Elias Garcia, domingo, 28 de Março de 2010, já com o horário de Verão :)

quarta-feira, março 17, 2010

A "crise"...

... serve apenas e sómente para sustentar esta "gente" pouco séria...


In Diario de Noticias de 17 de Março/2010

Os administradores da Portugal Telecom receberam, em 2009, seis milhões de euros em prémios pelo seu desempenho no comando da operadora de telecomunicações. Segundo o relatório de governo de sociedade da companhia, Henrique Granadeiro, Zeinal Bava e os seus pares receberam, no ano passado, o bónus respeitante a 2008 e ainda um bónus plurianual respeitante ao último mandato, que terminou no mesmo ano.

Este prémio, a três anos, é uma novidade proposta pela CMVM, que visa retirar a pressão dos resultados de curto prazo às administrações. Assim, em vez de os prémios serem pagos todos anualmente, há uma separação entre prémios anuais e plurianuais, pagos apenas no final do mandato.

O presidente executivo da PT, Zeinal Bava, recebeu um prémio anual de 794 mil euros, a que se soma um bónus plurianual de cerca de um milhão de euros, sem contar com o salário mensal.

Trata-se da primeira vez que é pago este prémio plurianual, sendo também uma novidade a divulgação individual da remuneração dos gestores da empresa, seguindo uma nova lei para as empresas cotadas. A PT revela, assim, que os seus gestores, executivos e não executivos, receberam 5,3 milhões de euros em salários fixos, 2,2 milhões de euros em prémios anuais e um bónus de 3,8 milhões de euros plurianuais.
A Portugal Telecom está abaixo da média das suas congéneres europeias no que toca à remuneração dos seus gestores. Apesar de as remunerações individuais de 2009 das empresas de telecomunicações ainda não estarem fechadas, fazendo uma comparação com os valores de há um ano, é possível verificar que a administração da PT está abaixo da Vodafone, Deutsche Telekom ou Telefónica.

O gestor mais bem pago na Europa é Vittorio Colao, presidente da Vodafone, que recebeu em 2008 uma remuneração total de 14 milhões de euros.

Gosto desta fotografia que encontrei no facebook do António Pinto, mas ainda gosto mais de quem está na fotografia :)

PS : Não,não me convencem a ter um facebook. Só o trabalho que dá o do Mário ...
“ Mãe, eu tenho muitas ideias e queria trabalhar uma banda de punk rock na tua empresa ”.
“ Mãe, já tenho um nome para a banda: Furacão Relâmpago”.
Porquê esse nome , perguntei eu .
“ Porque o furacão e o relâmpago fazem muito barulho“.

Estou mesmo tramada...

quinta-feira, março 11, 2010

Memórias

“Um incêndio deflagrou hoje num prédio da Rua Nova do Almada, 24, em Lisboa...”


Esta foi a notícia com que despertei no dia 11 de Fevereiro, faz hoje um mês. Mal ouvi “incêndio na Rua Nova do Almada “, pressenti ... sim, era mesmo no número 24.

O número 24 da Rua Nova do Almada fez parte da minha vida anos a fio, desde que ainda usava chucha e não largava o gato de estimação dos Por-fi-rios...


O meu pai tinha ali escritório de advogado, no 3º andar direito e a minha mãe trabalhava com ele. Muitos dias da minha infância foram ali passados, entre papéis e as revistas de África do Sul, o bater da máquina de escrever , as estampas que eu colava na casa de banho, a sesta do meu pai, as recordações de “galant” de cinema do Dr. Eduardo Fernandes, as "sportinguisses" do Dr. Raúl, o companheirismo do Natalino, a entrada e saída de clientes, as idas aos correios... Ai como eu gostava de ir aos correios e no caminho apanhar todos os clips que encontrasse e que o meu pai guardava religiosamente na sua secretária para usar sempre que necessário.

Lembro-me bem dessa secretária, coberta de um acumular de processos e que de dia para dia se via menos madeira e cada vez mais, muito mais papéis. Lembro-me bem dos seus acessórios e há muito pouco tempo reencontrei-me com alguns deles e não resisti a colocá-los na minha secretária cá de casa :)


E os dias passavam-se também na companhia de tanta gente que dava vida àquele prédio. Logo à entrada, no piso térreo, era a casa dos porteiros – o Sr. Joaquim e a Tia Augusta, com quem tantas vezes almoçei e passei tardes a ver televisão. Nos 1ºs e 2ºs andares funcionavam uns escritórios que nunca me despertaram a atenção ,sendo que até hoje não sei que serviços albergavam e quem lá trabalharia ( diz a minha mãe que eram também de advogados ) .

Já no 3º andar esquerdo, também escritório de advogados, exerciam a sua actividade o Dr. Rato e o Dr.Marques Mendes ( não é o que conhecemos actualmente da politica ), que tinham uma secretária muito simpática, a Maria Teresa. Os 4ºs e 5ºs andares ( os mais afectados com o recente incêndio ) eram casas de habitação, onde moravam a D. Guiomar e as suas filhas gémeas, a D.Ivone e a sua irmã Aurorinha e a D. Emilia. Adorava passar as tardes na casa da D.Ivone ( que me tratava sempre por filha ), nas águas furtadas e durante muitos anos tive o desejo calado de um dia ter uma casa numas águas furtadas da baixa lisboeta.

O tempo passava-se também ali pela rua, sendo que até hoje é impossível esquecer o lugar dos jornais, tabaco, etc, a bem dizer a papelaria do Sr. João, um genuíno comunista que ainda antes do 25 de Abril me oferecia selos da Rússia que guardo comigo até hoje. Também aí foram comprados os discos das edições Abril que tanto alegraram a minha infância : O Gato das Botas, O João Mata Sete, A Bela Adormecida, O Ali Babá e os 40 ladrões e muitos outros.


Mesmo em frente era ( é ) a “Merendinha”, onde se servia ( e serve ) a melhor limonada que bebi até hoje, onde tantas vezes lanchava com a minha mãe.


E depois havia ( ainda há ?! ) todas aquelas lojas das quais éramos clientes, mais ou menos frequentes : a Casa Senna, a Socidel, a Sasseti onde me lembro tão bem de ter comprado o single da Tonicha ( da canção do festival, é claro – “Menina do Alto da Serra” ), a Ibertope, a Casa Batalha ...

Das imediações da Rua Nova do Almada , ficam-me da infância :

Os almoços no Palmeira – adorava o bife da casa com esparregado :) Durante muito tempo, o frigorifico gigante instalado na última sala do restaurante punha-me em sentido, pois era o local onde fechavam as meninas que se portavam mal. Recordo com muita ternura o Sr. Almeida ( falecido ) e todos os empregados daquela casa e aproveito para agora, aqui mesmo, agradecer o facto de terem estado presentes na despedida do meu pai, como se de alguém da família se tratasse, pois na verdade assim o sentia. Nas alturas de aperto ( expressão muito usada pelo meu pai ) era o Sr. Almeida que lá ia descontando uns cheques; acredito até que muitas das vezes não tenha sido pelo aperto, mas sómente pelo facto do meu pai não se entender com as burocracias que envolvem levantar um cheque num banco... O momento de pagar a conta era sempre excitante porque nunca sabia se os meus pais iam discutir ou não, um pela gorjeta ser miserável e outro pela gorjeta ser uma fortuna! Havia um colega e amigo do meu pai que só encontrava no Palmeira, o pai do Maestro Vitorino de Almeida, um homem muito alto, de porte irrepreensível e que eu admirava pela boa energia que emanava. E, por fim, todo o ambiente agitado que ali se vivia naquela hora, a do almoço.

Na Rua do Crucifixo, eram também os escritórios de advogados do Dr. Abranches Ferrão e do Dr. Sousa Uva, onde tantas vezes penei com a minha mãe horas a fio, enquanto esperávamos pelo meu pai para ir para casa e quando não o esperávamos ali, esperávamos em casa, onde raramente chegava antes das 22h ainda por jantar ( e admiram-se que eu seja assim... ). Do Dr. Abranches Ferrão nunca me esquecerei de umas canetas de filtro que me ofereceu num aniversário, sendo que anos mais tarde e pouco antes de falecer, recebi uma carta sua a devolver-me os desenhos que outrora lhe oferecera e que havia pintado com essas mesmas canetas. Um gesto que nunca esquecerei, mesmo. Do Dr.Uva é impossível esquecer as horas passadas no seu escritório, sendo que tinha de infernizar a vida a alguém e esse alguém era o Sr. Branco. Recordo ainda que sempre ( ou quase sempre ) que o Dr.Uva vinha do Algarve, chegavam lá a casa umas aves raras que eu não gostava nada ( faizão ) e lembro-me vagamente dos jantares em sua casa , no Bairro Azul.

Embora toda a Baixa faça parte da minha infância e do passado anterior a eu ser alguém, há coisas da época de menina que estarão sempre presentes, como o cabeleireiro Caetano ( dele e da Elvira ), os Por-fi-rios onde a minha mãe fazia questão de nos vestir ( ao meu irmão e a mim ) para andarmos sempre na vanguarda da moda ( quem diria que eu já andei na moda , hein ? ), a Ferrari e a Central da Baixa ( belos lanches ), a Pastelaria Suiça ( com os bolos de aniversário mais inovadores da época ), a Regional ( para os almoços especiais ), o Martins e Costa ( sendo que a minha mãe fez sempre questão de ter em casa as primeiras frutas da época e sempre que possível uns miminhos gourmets ), o Coliseu de Lisboa ( as visitas ao Sr. Covões, o assistir aos ensaios dos ballets russos, o circo... ) e até mesmo o edifício da PIDE na António Maria Cardoso de onde um dia a minha mãe saiu a correr, rua afora, comigo nos braços.

Foi também na Rua Nova do Almada que eu recebi o cheque do meu primeiro ordenado, pelo trabalho na loja da Valentim de Carvalho na Av. de Roma , como substituta da Rusa ( irmã da Inha que vim a conhecer mais tarde ) durante as suas férias na época de Natal ( andava eu no 12º ano e quem me conseguiu esse trabalho foi o João Portugal, que não é o cantor e que nunca mais voltei a encontrar ). Lembro-me que comprei uma camisa muito gira numa loja ali perto e os brincos mais fantásticos que alguma tive, cheios de guisos, na Loja da Ana Salazar. Perdi-os entretanto :( O resto do dinheiro foi gasto na própria Valentim , em discos , é claro.

Mais tarde, já mãe do Mário, regressei à Rua Nova do Almada, 24, 3º Dtº, para me estabelecer como manager e agente do Jorge Palma e dos Censurados, tendo-se seguido outros Artistas, mas a aventura não correu lá muito bem pelas mais diversas razões que não importam para aqui agora. No entanto, soube bem voltar a um sítio que nos abraça e receber o carinho de quem por ali ainda andava e voltar a viver um certo quotidiano que me era familiar, como a sagrada sesta do meu pai depois de almoço e até às 16h , hora a partir da qual ele recebia os seus clientes ( como eu o entendo agora ! ). Dessa época, recordo particularmente um personagem, um funcionário da Câmara, também pintor, que a meio do dia já estava totalmente alcoolizado. Soube entretanto que morreu. Foi também neste período de regresso à Baixa que começei a frequentar, com o meu pai, o restaurante indiano Caxemira que até hoje é o que elejo em Lisboa. Há uma situação peculiar e inesquecível : um dia, o Bourbon foi almoçar comigo e deixou no meu gabinete o capacete e as luvas da mota e ao voltarmos do almoço, tinham desaparecido ! Um trapaçeiro qualquer apanhou o meu pai sózinho no escritório, pediu para usar o WC e “limpou” tudo o que conseguiu e mais não levou porque nada mais lhe terá interessado levar. E o meu pai, na sua sala de trabalho, não deu por nada...




Curiosamente, o Tribunal da Boa Hora foi-me passando ao lado, talvez porque o Palácio da Justiça era aquele de que eu ouvia falar, uma vez que o meu pai só tratava de acções do foro cível. Mas, um certo dia do último ano em que trabalhei na Rua Nova do Almada, o Tribunal da Boa Hora passou a estar na ordem do dia, pois a tal levaram as acções do Carlos sob os efeitos da droga... e mais tarde não havia dia em que os telejornais não referenciassem o dito cujo tribunal, sobretudo depois de rebentar a bomba do processo Casa Pia. Em todo o rigor , o Tribunal da Boa Hora continua a passar-me ao lado.

Depois do Verão de 2004, o meu pai teve de deixar de trabalhar e aquele lugar que foi toda a sua vida, passou a ser mais um lugar da sua história. É que também ele, de criança, ia para o escritório do seu pai, na Baixa, na Rua da Prata esquina com a Rua dos Retroseiros ( prédio da antiga Ourivesaria Moitinho que era todo habitado pela minha família no início do século XX ), aquele tal lugar onde conviveu com Fernando Pessoa, tendo este prefaciado o seu primeiro livro de poesias “Acrónios”.

Ir à baixa, fosse a pé, fosse de carro, era encontrar o meu pai pela certa, quase como se fosse um personagem que fizesse parte daquele cenário.

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

Eu ainda estranho ir à Baixa ... mas tenho entranhada a minha história e não há fogo que apague isso.


NOTA EXTRA :
Em 2007 fui contactada, via blogue, por um estudante de História, o Daniel Alves, que estava a fazer uma tese de doutoramento sobre como os lojistas e pequenos comerciantes de Lisboa foram responsáveis pela queda da monarquia. Nesse estudo, surge o nome do meu bisavô paterno, António Joaquim Simões de Almeida, sobre quem ele recolheu os dados que passo a transcrever ( porque são também parte das memórias do meu pai e, consequentemente, a minha história ) e que mais uma vez agradeço por os ter facultado.

António Joaquim Simões d’ Almeida



Sócio da Associação Comercial de Lojistas de Lisboa entre 1888 e 1892. Presidente da Direcção da Associação Comercial de Lojistas de Lisboa em 1889-1890. Durante vários anos eleito vereador da CML pelo Partido Regenerador. Era, em 1888, presidente da assembleia-geral da Associação dos Ourives da prata lisbonenses. Nasceu em 1858 e morreu a 6 de Agosto de 1934. Foi director da Associação Comercial de Lisboa, em 1894e mais tarde seu presidente entre 1897 e 1902. Foi “administrador da Companhia dos Tabacos de Portugal, presidente do Conselho Fiscal do Banco Burnay e director da Companhia de Seguros «Tagus». Foi, igualmente, presidente honorário da Associação de Socorros Mútuos dos Empregados no Comércio e Indústria e das associações dos Ourives de Prata e dos Ourives de Artes Anexas. Foi um dos fundadores do Asilo-Oficina de Santo António, em Lisboa, e durante alguns anos, colaborador assíduo do Comércio do Porto (...). Era comendador da Ordem de Vitória com que foi agraciado por Eduardo VII, quando da sua visita a Portugal. Eleito membro da "Junta Departamental do Sul" no II Congresso das Associações Portuguesas de 1883, juntamente com Elias Garcia, Teófilo Braga, Consigliere Pedrozo, Magalhães Lima, entre outros . Em 1904 foi director do Banco Português e Brasileiro . Tirou o “curso do Instituto Industrial e Commercial de Lisboa”, tendo sido “dos mais laureados alunos daquela colectividade” . Tinha loja na Rua da Prata e morava, juntamente com a restante família, no mesmo prédio. Luís Pedro Moitinho de Almeida, neto de Simões de Almeida, escreveu: “em princípios do século [XX], todo o prédio se encontrava ocupado pela minha família; nas lojas era a ourivesaria, nos 1.° e 2.º andares viviam meus bisavós Luís Pinto Moitinho e mulher e nos 3.º e 4.° andares viviam meus avós António Joaquim Simões de Almeida e mulher. A pouco e pouco a situação foi-se modificando. Meu pai, Carlos Eugénio Moitinho de Almeida, em 1907, passou a ocupar todo o 1.° andar onde estabeleceu um escritório comercial de comissões, consignações e conta própria. Meu avô António Joaquim Simões de Almeida trespassou a loja, que todavia conserva ainda hoje [1985], como disse, o nome de Ourivesaria Moitinho.” A referida ourivesaria pertencia a Luís Pinto Moitinho, “ourives da prata e que fundou o Asilo de Santo António de Lisboa”. Passou para Simões de Almeida, provavelmente, pelo casamento deste com a filha de Luís Pinto Moitinho, Isabel Maria Pinto Moitinho. Na casa de António Joaquim Simões de Almeida estiveram “os emissários do rei Eduardo VII de Inglaterra [quando da sua visita a Portugal] (…) para entregar (…) as insígnias de Cavaleiro Comendador da Ordem Vitória” . No Boletim da Associação Comercial de Lojistas de Lisboa de Fevereiro de 1908 é feito um elogio biográfico a Simões de Almeida. Este comerciante, é dito então, “manejando com extrema facilidade a pena, possui por igual apreciabilíssimas qualidades oratórias, tendo feito brilhantes conferências públicas sobre assuntos coloniais”. Foi “colaborador efectivo” dos jornais Jornal do Comércio e O Comércio do Porto. “Produziu um substancioso trabalho no qual se ocupa da amoedação de prata e ouro, correndo impresso num magnífico livro subordinado ao título: A Casa da Moeda e a circulação monetária.” Para além disso, são destacados também alguns traços da sua personalidade, pois “como amigo todos atestam que é dos mais valedores e prestáveis; [e] como chefe de família ninguém o excede em extremos e afectos.”

I - SANTOS, Maria do Rosário e VIEGAS, Inês Morais (coord.), A evolução municipal de Lisboa: pelouros e vereações, Lisboa, Câmara Municipal. Pelouro da Cultura. Divisão de Arquivos, 1996, pp. 110-112.

II - Almanach Commercial de Lisboa para 1889, Lisboa, Companhia Typographica, 1888, p. 965.

III - Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Lisboa, Editorial Enciclopédia, 1978, vol. 29, pp. 63-64.

IV - Relatório e Contas da Gerência da Direcção da Associação Commercial de Logistas de Lisboa relativo ao anno de 1883, Lisboa, Typographia Economica de Gonçalves, 1884, p. 21.

V - Commercio e Industria, folha illustrada com retratos e biographias, n.º 176, Lisboa, 1904.

VI - Commercio e Industria, folha illustrada com retratos e biographias, n.º 176, Lisboa, 1904 e Associação Comercial de Lojistas de Lisboa, Boletim da Associação Comercial de Lojistas de Lisboa, n.º 38, Fevereiro de 1908, p. 10.

VII - ALMEIDA, Luís Pedro Moitinho de, Fernando Pessoa no cinquentenário da sua morte, Coimbra, Coimbra Editora, 1985, pp. 56-57.

VIII - ALMEIDA, Luís Pedro Moitinho de, Fernando Pessoa no cinquentenário da sua morte, Coimbra, Coimbra Editora, 1985, p. 56.

IX - Associação Comercial de Lojistas de Lisboa, Boletim da Associação Comercial de Lojistas de Lisboa, n.º 38, Fevereiro de 1908, p. 10.