quinta-feira, março 11, 2010

Memórias

“Um incêndio deflagrou hoje num prédio da Rua Nova do Almada, 24, em Lisboa...”


Esta foi a notícia com que despertei no dia 11 de Fevereiro, faz hoje um mês. Mal ouvi “incêndio na Rua Nova do Almada “, pressenti ... sim, era mesmo no número 24.

O número 24 da Rua Nova do Almada fez parte da minha vida anos a fio, desde que ainda usava chucha e não largava o gato de estimação dos Por-fi-rios...


O meu pai tinha ali escritório de advogado, no 3º andar direito e a minha mãe trabalhava com ele. Muitos dias da minha infância foram ali passados, entre papéis e as revistas de África do Sul, o bater da máquina de escrever , as estampas que eu colava na casa de banho, a sesta do meu pai, as recordações de “galant” de cinema do Dr. Eduardo Fernandes, as "sportinguisses" do Dr. Raúl, o companheirismo do Natalino, a entrada e saída de clientes, as idas aos correios... Ai como eu gostava de ir aos correios e no caminho apanhar todos os clips que encontrasse e que o meu pai guardava religiosamente na sua secretária para usar sempre que necessário.

Lembro-me bem dessa secretária, coberta de um acumular de processos e que de dia para dia se via menos madeira e cada vez mais, muito mais papéis. Lembro-me bem dos seus acessórios e há muito pouco tempo reencontrei-me com alguns deles e não resisti a colocá-los na minha secretária cá de casa :)


E os dias passavam-se também na companhia de tanta gente que dava vida àquele prédio. Logo à entrada, no piso térreo, era a casa dos porteiros – o Sr. Joaquim e a Tia Augusta, com quem tantas vezes almoçei e passei tardes a ver televisão. Nos 1ºs e 2ºs andares funcionavam uns escritórios que nunca me despertaram a atenção ,sendo que até hoje não sei que serviços albergavam e quem lá trabalharia ( diz a minha mãe que eram também de advogados ) .

Já no 3º andar esquerdo, também escritório de advogados, exerciam a sua actividade o Dr. Rato e o Dr.Marques Mendes ( não é o que conhecemos actualmente da politica ), que tinham uma secretária muito simpática, a Maria Teresa. Os 4ºs e 5ºs andares ( os mais afectados com o recente incêndio ) eram casas de habitação, onde moravam a D. Guiomar e as suas filhas gémeas, a D.Ivone e a sua irmã Aurorinha e a D. Emilia. Adorava passar as tardes na casa da D.Ivone ( que me tratava sempre por filha ), nas águas furtadas e durante muitos anos tive o desejo calado de um dia ter uma casa numas águas furtadas da baixa lisboeta.

O tempo passava-se também ali pela rua, sendo que até hoje é impossível esquecer o lugar dos jornais, tabaco, etc, a bem dizer a papelaria do Sr. João, um genuíno comunista que ainda antes do 25 de Abril me oferecia selos da Rússia que guardo comigo até hoje. Também aí foram comprados os discos das edições Abril que tanto alegraram a minha infância : O Gato das Botas, O João Mata Sete, A Bela Adormecida, O Ali Babá e os 40 ladrões e muitos outros.


Mesmo em frente era ( é ) a “Merendinha”, onde se servia ( e serve ) a melhor limonada que bebi até hoje, onde tantas vezes lanchava com a minha mãe.


E depois havia ( ainda há ?! ) todas aquelas lojas das quais éramos clientes, mais ou menos frequentes : a Casa Senna, a Socidel, a Sasseti onde me lembro tão bem de ter comprado o single da Tonicha ( da canção do festival, é claro – “Menina do Alto da Serra” ), a Ibertope, a Casa Batalha ...

Das imediações da Rua Nova do Almada , ficam-me da infância :

Os almoços no Palmeira – adorava o bife da casa com esparregado :) Durante muito tempo, o frigorifico gigante instalado na última sala do restaurante punha-me em sentido, pois era o local onde fechavam as meninas que se portavam mal. Recordo com muita ternura o Sr. Almeida ( falecido ) e todos os empregados daquela casa e aproveito para agora, aqui mesmo, agradecer o facto de terem estado presentes na despedida do meu pai, como se de alguém da família se tratasse, pois na verdade assim o sentia. Nas alturas de aperto ( expressão muito usada pelo meu pai ) era o Sr. Almeida que lá ia descontando uns cheques; acredito até que muitas das vezes não tenha sido pelo aperto, mas sómente pelo facto do meu pai não se entender com as burocracias que envolvem levantar um cheque num banco... O momento de pagar a conta era sempre excitante porque nunca sabia se os meus pais iam discutir ou não, um pela gorjeta ser miserável e outro pela gorjeta ser uma fortuna! Havia um colega e amigo do meu pai que só encontrava no Palmeira, o pai do Maestro Vitorino de Almeida, um homem muito alto, de porte irrepreensível e que eu admirava pela boa energia que emanava. E, por fim, todo o ambiente agitado que ali se vivia naquela hora, a do almoço.

Na Rua do Crucifixo, eram também os escritórios de advogados do Dr. Abranches Ferrão e do Dr. Sousa Uva, onde tantas vezes penei com a minha mãe horas a fio, enquanto esperávamos pelo meu pai para ir para casa e quando não o esperávamos ali, esperávamos em casa, onde raramente chegava antes das 22h ainda por jantar ( e admiram-se que eu seja assim... ). Do Dr. Abranches Ferrão nunca me esquecerei de umas canetas de filtro que me ofereceu num aniversário, sendo que anos mais tarde e pouco antes de falecer, recebi uma carta sua a devolver-me os desenhos que outrora lhe oferecera e que havia pintado com essas mesmas canetas. Um gesto que nunca esquecerei, mesmo. Do Dr.Uva é impossível esquecer as horas passadas no seu escritório, sendo que tinha de infernizar a vida a alguém e esse alguém era o Sr. Branco. Recordo ainda que sempre ( ou quase sempre ) que o Dr.Uva vinha do Algarve, chegavam lá a casa umas aves raras que eu não gostava nada ( faizão ) e lembro-me vagamente dos jantares em sua casa , no Bairro Azul.

Embora toda a Baixa faça parte da minha infância e do passado anterior a eu ser alguém, há coisas da época de menina que estarão sempre presentes, como o cabeleireiro Caetano ( dele e da Elvira ), os Por-fi-rios onde a minha mãe fazia questão de nos vestir ( ao meu irmão e a mim ) para andarmos sempre na vanguarda da moda ( quem diria que eu já andei na moda , hein ? ), a Ferrari e a Central da Baixa ( belos lanches ), a Pastelaria Suiça ( com os bolos de aniversário mais inovadores da época ), a Regional ( para os almoços especiais ), o Martins e Costa ( sendo que a minha mãe fez sempre questão de ter em casa as primeiras frutas da época e sempre que possível uns miminhos gourmets ), o Coliseu de Lisboa ( as visitas ao Sr. Covões, o assistir aos ensaios dos ballets russos, o circo... ) e até mesmo o edifício da PIDE na António Maria Cardoso de onde um dia a minha mãe saiu a correr, rua afora, comigo nos braços.

Foi também na Rua Nova do Almada que eu recebi o cheque do meu primeiro ordenado, pelo trabalho na loja da Valentim de Carvalho na Av. de Roma , como substituta da Rusa ( irmã da Inha que vim a conhecer mais tarde ) durante as suas férias na época de Natal ( andava eu no 12º ano e quem me conseguiu esse trabalho foi o João Portugal, que não é o cantor e que nunca mais voltei a encontrar ). Lembro-me que comprei uma camisa muito gira numa loja ali perto e os brincos mais fantásticos que alguma tive, cheios de guisos, na Loja da Ana Salazar. Perdi-os entretanto :( O resto do dinheiro foi gasto na própria Valentim , em discos , é claro.

Mais tarde, já mãe do Mário, regressei à Rua Nova do Almada, 24, 3º Dtº, para me estabelecer como manager e agente do Jorge Palma e dos Censurados, tendo-se seguido outros Artistas, mas a aventura não correu lá muito bem pelas mais diversas razões que não importam para aqui agora. No entanto, soube bem voltar a um sítio que nos abraça e receber o carinho de quem por ali ainda andava e voltar a viver um certo quotidiano que me era familiar, como a sagrada sesta do meu pai depois de almoço e até às 16h , hora a partir da qual ele recebia os seus clientes ( como eu o entendo agora ! ). Dessa época, recordo particularmente um personagem, um funcionário da Câmara, também pintor, que a meio do dia já estava totalmente alcoolizado. Soube entretanto que morreu. Foi também neste período de regresso à Baixa que começei a frequentar, com o meu pai, o restaurante indiano Caxemira que até hoje é o que elejo em Lisboa. Há uma situação peculiar e inesquecível : um dia, o Bourbon foi almoçar comigo e deixou no meu gabinete o capacete e as luvas da mota e ao voltarmos do almoço, tinham desaparecido ! Um trapaçeiro qualquer apanhou o meu pai sózinho no escritório, pediu para usar o WC e “limpou” tudo o que conseguiu e mais não levou porque nada mais lhe terá interessado levar. E o meu pai, na sua sala de trabalho, não deu por nada...




Curiosamente, o Tribunal da Boa Hora foi-me passando ao lado, talvez porque o Palácio da Justiça era aquele de que eu ouvia falar, uma vez que o meu pai só tratava de acções do foro cível. Mas, um certo dia do último ano em que trabalhei na Rua Nova do Almada, o Tribunal da Boa Hora passou a estar na ordem do dia, pois a tal levaram as acções do Carlos sob os efeitos da droga... e mais tarde não havia dia em que os telejornais não referenciassem o dito cujo tribunal, sobretudo depois de rebentar a bomba do processo Casa Pia. Em todo o rigor , o Tribunal da Boa Hora continua a passar-me ao lado.

Depois do Verão de 2004, o meu pai teve de deixar de trabalhar e aquele lugar que foi toda a sua vida, passou a ser mais um lugar da sua história. É que também ele, de criança, ia para o escritório do seu pai, na Baixa, na Rua da Prata esquina com a Rua dos Retroseiros ( prédio da antiga Ourivesaria Moitinho que era todo habitado pela minha família no início do século XX ), aquele tal lugar onde conviveu com Fernando Pessoa, tendo este prefaciado o seu primeiro livro de poesias “Acrónios”.

Ir à baixa, fosse a pé, fosse de carro, era encontrar o meu pai pela certa, quase como se fosse um personagem que fizesse parte daquele cenário.

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

Eu ainda estranho ir à Baixa ... mas tenho entranhada a minha história e não há fogo que apague isso.


NOTA EXTRA :
Em 2007 fui contactada, via blogue, por um estudante de História, o Daniel Alves, que estava a fazer uma tese de doutoramento sobre como os lojistas e pequenos comerciantes de Lisboa foram responsáveis pela queda da monarquia. Nesse estudo, surge o nome do meu bisavô paterno, António Joaquim Simões de Almeida, sobre quem ele recolheu os dados que passo a transcrever ( porque são também parte das memórias do meu pai e, consequentemente, a minha história ) e que mais uma vez agradeço por os ter facultado.

António Joaquim Simões d’ Almeida



Sócio da Associação Comercial de Lojistas de Lisboa entre 1888 e 1892. Presidente da Direcção da Associação Comercial de Lojistas de Lisboa em 1889-1890. Durante vários anos eleito vereador da CML pelo Partido Regenerador. Era, em 1888, presidente da assembleia-geral da Associação dos Ourives da prata lisbonenses. Nasceu em 1858 e morreu a 6 de Agosto de 1934. Foi director da Associação Comercial de Lisboa, em 1894e mais tarde seu presidente entre 1897 e 1902. Foi “administrador da Companhia dos Tabacos de Portugal, presidente do Conselho Fiscal do Banco Burnay e director da Companhia de Seguros «Tagus». Foi, igualmente, presidente honorário da Associação de Socorros Mútuos dos Empregados no Comércio e Indústria e das associações dos Ourives de Prata e dos Ourives de Artes Anexas. Foi um dos fundadores do Asilo-Oficina de Santo António, em Lisboa, e durante alguns anos, colaborador assíduo do Comércio do Porto (...). Era comendador da Ordem de Vitória com que foi agraciado por Eduardo VII, quando da sua visita a Portugal. Eleito membro da "Junta Departamental do Sul" no II Congresso das Associações Portuguesas de 1883, juntamente com Elias Garcia, Teófilo Braga, Consigliere Pedrozo, Magalhães Lima, entre outros . Em 1904 foi director do Banco Português e Brasileiro . Tirou o “curso do Instituto Industrial e Commercial de Lisboa”, tendo sido “dos mais laureados alunos daquela colectividade” . Tinha loja na Rua da Prata e morava, juntamente com a restante família, no mesmo prédio. Luís Pedro Moitinho de Almeida, neto de Simões de Almeida, escreveu: “em princípios do século [XX], todo o prédio se encontrava ocupado pela minha família; nas lojas era a ourivesaria, nos 1.° e 2.º andares viviam meus bisavós Luís Pinto Moitinho e mulher e nos 3.º e 4.° andares viviam meus avós António Joaquim Simões de Almeida e mulher. A pouco e pouco a situação foi-se modificando. Meu pai, Carlos Eugénio Moitinho de Almeida, em 1907, passou a ocupar todo o 1.° andar onde estabeleceu um escritório comercial de comissões, consignações e conta própria. Meu avô António Joaquim Simões de Almeida trespassou a loja, que todavia conserva ainda hoje [1985], como disse, o nome de Ourivesaria Moitinho.” A referida ourivesaria pertencia a Luís Pinto Moitinho, “ourives da prata e que fundou o Asilo de Santo António de Lisboa”. Passou para Simões de Almeida, provavelmente, pelo casamento deste com a filha de Luís Pinto Moitinho, Isabel Maria Pinto Moitinho. Na casa de António Joaquim Simões de Almeida estiveram “os emissários do rei Eduardo VII de Inglaterra [quando da sua visita a Portugal] (…) para entregar (…) as insígnias de Cavaleiro Comendador da Ordem Vitória” . No Boletim da Associação Comercial de Lojistas de Lisboa de Fevereiro de 1908 é feito um elogio biográfico a Simões de Almeida. Este comerciante, é dito então, “manejando com extrema facilidade a pena, possui por igual apreciabilíssimas qualidades oratórias, tendo feito brilhantes conferências públicas sobre assuntos coloniais”. Foi “colaborador efectivo” dos jornais Jornal do Comércio e O Comércio do Porto. “Produziu um substancioso trabalho no qual se ocupa da amoedação de prata e ouro, correndo impresso num magnífico livro subordinado ao título: A Casa da Moeda e a circulação monetária.” Para além disso, são destacados também alguns traços da sua personalidade, pois “como amigo todos atestam que é dos mais valedores e prestáveis; [e] como chefe de família ninguém o excede em extremos e afectos.”

I - SANTOS, Maria do Rosário e VIEGAS, Inês Morais (coord.), A evolução municipal de Lisboa: pelouros e vereações, Lisboa, Câmara Municipal. Pelouro da Cultura. Divisão de Arquivos, 1996, pp. 110-112.

II - Almanach Commercial de Lisboa para 1889, Lisboa, Companhia Typographica, 1888, p. 965.

III - Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Lisboa, Editorial Enciclopédia, 1978, vol. 29, pp. 63-64.

IV - Relatório e Contas da Gerência da Direcção da Associação Commercial de Logistas de Lisboa relativo ao anno de 1883, Lisboa, Typographia Economica de Gonçalves, 1884, p. 21.

V - Commercio e Industria, folha illustrada com retratos e biographias, n.º 176, Lisboa, 1904.

VI - Commercio e Industria, folha illustrada com retratos e biographias, n.º 176, Lisboa, 1904 e Associação Comercial de Lojistas de Lisboa, Boletim da Associação Comercial de Lojistas de Lisboa, n.º 38, Fevereiro de 1908, p. 10.

VII - ALMEIDA, Luís Pedro Moitinho de, Fernando Pessoa no cinquentenário da sua morte, Coimbra, Coimbra Editora, 1985, pp. 56-57.

VIII - ALMEIDA, Luís Pedro Moitinho de, Fernando Pessoa no cinquentenário da sua morte, Coimbra, Coimbra Editora, 1985, p. 56.

IX - Associação Comercial de Lojistas de Lisboa, Boletim da Associação Comercial de Lojistas de Lisboa, n.º 38, Fevereiro de 1908, p. 10.

3 comentários:

Ju disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Carla Sousa disse...

Ter as memórias assim tão presentes deve ser algo absolutamente maravilhoso. Gostava de conseguir fazer o mesmo.

Obrigada pela partilha!

Beijinhos*

glb disse...

O Post "memórias" dava para 2 ou 3 :)

Agora percebo melhor a ligação entre o Jorge Palma e os Censurados. Boa manobra de marketing. Há alguma estória interessante sobre essa ligação (se calhar até já foi contada no blog).