domingo, maio 11, 2008

Na Travessa das Freiras

Em Lisboa existem,pelo menos , duas “Travessa das Freiras” , que estão ligadas à minha vida.

A de Arroios , mesmo encostada ao Colégio do Sagrado Coração de Maria , que frequentei do 5º ao 11º ano , onde vivia a minha colega Teresa Paula com quem aprendi a gostar de Michael Jackson ( com o disco “ Off the Wall “) , apesar de na altura estar muito mais virada para os ACDC.

Mas a Travessa das Freiras que hoje me apetece recordar aqui ,é aquela junto ao Campo de Santa Clara ( Feira da Ladra ) , mesmo encostada ao Tribunal Militar.

Quando deixei a casa dos meus pais para viver com o Carlos , mudei-me para o 2º andar , do número 26 desta rua. Um antigo bairro operário , cuja maioria dos prédios não tem mais que quatro andares baixinhos e tem apenas um lance de escadas ( em madeira , daquelas que custam lavar ) , onde não há lado direito , nem esquerdo , só uma humilde casinha por piso. Tinha uma pequena sala com varanda , dois quartos de dormir interiores , uma cozinha ( a melhor divisão da casa ) , uma marquise e um WC que até tinha banheira ! Todas as divisões tinham ligação umas às outras , mesmo as interiores, fosse através de portas , fosse através de pequenas janelas. O tecto era o suficente para não batermos com a cabeça no mesmo , mas esticando bem os braços era fácil tocar-lhe :/

A casa tinha apenas paredes , chão e tecto. Tudo era necessário para a poder habitar. Mas assim que a aluguei , fui para lá viver com meia dúzia de coisas indispensáveis e tudo o resto foi-se adquirindo à medida que foi possível. O esquentador só chegou ao final de uma semana de banhos frios, mas o espírito era mesmo esse : “Amor e uma cabana” :)

A minha alegre casinha , situava-se entre as casas da Berta e do Zé no 3º andar e da Barbara e do Xico no rés do chão. Os meus vizinhos eram quase todos reformados , excepto a Berta que na altura ainda exercia enfermagem . No 4º andar vivia um homem solteiro , que chegava sempre tarde e de quem , por muito tempo , só lhe adivinhava os passos e imaginava-o um personagem estranho de olho na testa , vá-se lá saber porquê, pois afinal era um homem solteiro comum.

Eu gostava de viver naquela zona antiga de Lisboa . Todas as manhãs , ao descer a rua tinha o Jardim e o Tejo lá ao fundo a encher-me a alma. Ás 3ªas feiras e aos sábados era aquela dificuldade de estacionamento ,por causa da feira , mas a própria feira compensava a chatice de ter de deixar o carro longe. Adorava as compras no mercado , a fruta fresca , o peixe fresco, a carne especial que o Sr. Renée sempre me guardava ( espelho da pá para a Fondue , que era bem melhor que o lombo e mais barata , o que também era importante ) ... a mercearia e a drogaria do bairro... aquela vida de Lisboa de outros tempos ... E a Feira da Ladra era também um pretexto para ter a casa sempre cheia de amigos para o lanche , o jantar , a ceia e tantas vezes para pernoitar , num cantinho qualquer onde coubesse um colchão de campismo.

E foi aqui que o Mário foi desejado e concebido. Só faltou nascer em casa.

Vivi nesta casa sete anos , até ao dia em que ,por motivos alheios à minha vontade , tive que a abandonar para recomeçar a minha vida e a do Mário do zero. Tive coisas boas e outras más , muito más ,mas gosto de pensar nas boas.

Os meus vizinhos , “os meus velhotes “ , como costumo dizer , eram como que família. Havia um espírito de entreajuda , havia de facto uma amizade entre nós. Mesmo depois de deixar a casa , não perdi o contacto e sempre que me tem sido possível lá faço uma visitinha... mas agora , naquele prédio , que eu conheça , só vive a minha querida Berta e na 5ª feira despedi-me da Bárbara , que há muito vivia num lar e que está , agora , onde já não é possível continuar a sofrer.

E a vida , vai-me levando , cada vez mais amigos e desta vez quis partilhar esta perda , mas só havia uma pessoa com quem fazia sentido fazê-lo... também já cá não está , já fez dois anos ontem ...

Dos últimos meses na Trav. das Freiras encontrei estas fotografias ...

5 Setembro 1994 - Mário com a Barbara , em casa dela.

Outubro 1994 - Mário com Berta e Zé , em casa deles.

Novembro 1994 - Mário na palhaçada , enquanto se vestia no quarto dos pais.

18 Dezembro 1994 - Mário ainda com varicela , no seu quarto , pintado pelo pai.

4 comentários:

yolanda disse...

Bom Dia Linda!!!

Tantas vezes o Carlos me falou nessa casa, e tb a relembrava c tanto carinho.... o quarto q pintou p o Marinho, as pequenas divisões... enfim, eu até tinha alguma ciumeira!!!

E já fez 2 anos.... lembrei-me tanto de tanta coisa vivida nos 6 anos q estivemos juntos, mas cm tu, prefiro lembrar os bons momentos, pois é desses q eu tenho boas recordações....

e mtas saudades dele.... mtas mm.... cm eu gostava do " nosso " Carlitos....

Beijinhos Grandes!!!

Keratina disse...

És bonita. Ponto final.

ana disse...

Loucos e Santos


Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem,
mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto;
e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril. (Oscar Wilde)

MIGUEL WESTERBERG disse...

ola amiga, estive a ler seu texto e adorei, referente a "travessa das freiras".. pois tambem ja vivi ai, numas aguas furtadas no n 11.. ,

tambem tirei varias fotos de lá se um dia quizeres podes pesquizar em meu blog.. tem por lá uma, ou então vai no google..

agora estou no brasil em sp... a escrever um livro de algumas de minhas memorias.. rs sou artista plastico.

bjs e tudo de bom para ti.