domingo, fevereiro 04, 2007

“A insustentável lezeva do ser”

Há uma semana que aqui não venho.
Passei toda a semana a ter que me levantar de manhã e a cumprir com os meus deveres do dia a dia como acontece em qualquer outra semana . Mas , esta semana, andei apartada de mim . Funcionou o meu eu fisico e cerebral , mas o meu eu mais intimo , a minha alma andou por aí perdida , praticamente adormecida como que em negação com a vida. Andei a vaguear num género de limbo.
É que de um um dia para o outro tudo muda ou acaba , assim , sem mais nem menos e sobretudo sem aviso.

No sábado passado iniciava eu alegremente o trabalho da parte boa do Lado a Lado quando sou violentada com a noticia da morte , durante o sono , de mais uma daquelas pessoas incontornáveis na minha vida. O Rui .

Fez 2ª feira quinze dias que almoçámos juntos , depois de tantos anos sem estarmos juntos . Anos esses que passam porque passam , mas que não apagam nunca o que vivemos e o que fomos algum dia um para o outro ( porque de certa forma continuamos a estar ligados ).
Sei agora que foi uma despedida , como algumas outras que o foram sem que na altura o soubesse.

Como dizia o Luis Pinto , o Rui foi daquelas pessoas que se cruzou na vida de tantos de nós para nos mostrar um caminho que poucos arriscam percorrer. Um caminho incerto , que não sabemos onde nos vai levar . Um caminho que se vai definindo sem pressa de chegar ao fim e de preferência sem fim. Ele guiou muitos de nós . Eu deixei-me guiar por ele.

Conheci-o no inicio dos anos 80 e em meados dessa década começei a minha aprendizagem na área de produção de espectáculos , o que muito me honra , pois o Rui foi um dos pioneiros na contratação de bandas internacionais para actuar no nosso País , pouco depois da revolução dos cravos e teve a coragem de produzir os primeiros espectáculos de grupos portugueses no Coliseu dos Recreios , como os Tantra e a Go Graal Blues Band. Foi um elemento fundamental para a criação de empresas de agenciamento e management de artistas portugueses , implementando a celebração de contratos que previam , pela primeira vez , garantir as condições técnicas e logisticas necessárias à actuação desses mesmos artistas.

O Rui foi desde sempre um lutador , pois acreditava no que fazia , entregando-se sem restrições aos projectos em que se envolvia. O Rui era daquelas pessoas que vestia a camisola e que a despia se fosse necessário para ajudar quem dela precisasse.
Quando todos pensavam que eu não passaria de uma “groupie” , o Rui acreditou em mim . Sentiu que eu era daquelas pessoas que também tinha o “bichinho” cá dentro.
Mas o Rui era muito mais que um mestre. O Rui era um amigo. O Rui era daquelas pessoas com uma formação e uma educação irrepreensíveis. Um homem de princípios , de valores. Um homem que nunca teve receio do incerto. Um homem que nunca desistiu daquilo em que acreditava.

Dói constatar que o Rui e poucos outros como ele , acabam por estar desajustados deste mundo de arrogância e de sucesso fácil sem olhar a meios para atingir os fins. Dói constatar que se tornam pessoas frágeis por não ser da sua natureza compactuar com tanta leveza , com a “insustentável leveza do ser”.

O Rui era um SER maior e para ele só mesmo a canção de outro SER maior ( o Jorge ).
“Gosto ti ” , deixou-me(nos) para sempre contigo.

PS :
E hoje tive vontade de voltar aqui porque estive com a Mafalda em Santa Maria da Feira , com um grupo de alunos do 12º ano , da disciplina de Área de Projecto , que está a fazer um trabalho sobre a educação em Portugal. Rapazes e raparigas que invulgarmente têm outra perspectiva da vida , que contrariam a apatia generalizada perante a mesma , imposta pelo próprio sistema . E há pessoas que nos despertam para esse outro lado da vida, aquele em que somos . No caso deles é a professora Cristina , no meu caso foram pessoas como o Rui , o meu pai...

4 comentários:

yolanda disse...

Ana,

infelimente a vida é assim... e por mt q nos custe, temos q continuar, e reaprender a viver sem aquelas pessoas q mais gostamos...

Um grande Beijo para Marinho e Um mt grande pata ti!

Yolanda

Pêndulo disse...

Ana

aqueles de quem gostamos nunca partem... ficam sempre num cantinho especial do nosso coração. Dói a separação... mas habituamo-nos e as boas memórias contnuam enquanto vivermos.

e nunca te esqueças que "ele há coisas a acabar...mas há tantas a começar..."

um beijo

Célia disse...

Moitinha,

Obrigado por relembrares o bom homem que o Rui "é". E a maneira especial como tocou e continua a tocar as nossas vidas.

Beijocas

Célia

José Carrancudo disse...

Provavelmente o trabalho dos alunos já está acabado, mas recomendo, a todos, uma análise nossa do estado da educação em Portugal, com recomendações muito concretas e fáceis de implementar.