quarta-feira, novembro 01, 2006

A má da fita

De vez em quando , as funções que exerço como manager ou road manager , obrigam-me a ter que prescindir dos serviços de A , B , C ou D por razões diversas.
Quem me conhece , sabe que pode ter tudo da minha pessoa , mas quem me conhece mesmo sabe que não permito a inconsciência , a mentira e a falta de confiança.
Coordenar uma equipa de trabalho de 15 ou 20 pessoas não é um trabalho fácil , porque para além das competências profissionais inerentes , é preciso saber criar um ambiente de harmonia para que a mesma possa funcionar e muitas vezes exercer quase a função de psicóloga.
Há muito tempo que tal não acontecia , mas esta semana tive que tomar uma decisão complicada , a de despedir um colaborador , companheiro de estrada.
Foi uma decisão radical , de um dia para o outro. Aconteceu com um elemento a quem eu dei trabalho , por me merecer essa confiança como profissional , até porque em termos pessoais desconhecia a sua vida, apesar de saber que se tratava de uma pessoa com dois filhos para criar e que passava por dificuldades de emprego e familiares.
Até há bem pouco tempo tudo decorria na normalidade , até que comecei a notar algumas atitudes duvidosas , mas que não quis julgar de imediato , embora o meu sexto sentido , por norma , não me engane.
No entanto , nos últimos concertos que fizémos juntos , a sua postura como profissional começou a deteriorar-se e o desespero com dinheiro tornou-se evidente.
As mensagens com pedidos de empréstimos ( avultados ) começaram a surgir no meu telemóvel e o bafo a álcool uma realidade , o que para um condutor é inadmissivel. A chantagem emocional , sempre com referências aos filhos começou a incomodar-me ( eu já vi este filme ! ).
Domingo passado foi a gota de água. Chegou ao local do concerto todo marcado ( por uma suposta briga fisica com o pai ) e já com um bafo a cerveja de fugir. Todo o dia passeou-se pelo recinto do espectáculo como uma barata tonta , totalmente desesperado. E o pânico instalou-se em mim. Tinha ali , à minha frente , a prova dos nove e com ela a continuação dos próximos episódios deste filme , que afinal eu conheço tão bem ( pelas piores razões ).
Pensar que nas suas mãos está a vida de outras pessoas , não poder deixar carteiras nos camarins porque não se sabe qual o dia em que começarão a desaparecer coisas de dentro das mesmas e outras situações bem mais desagradaveis, levaram-me a que no dia seguinte prescindisse dos seus serviços, até porque fui eu a responsável pela sua integraçao na equipa e como tal sinto-me também responsável pelos seus actos menos profissionais e que podem colocar em causa toda uma estrutura.
Custou-me , muito , mesmo. Não tenho dúvidas de que é uma boa pessoa e por isso nada de pior aconteceu até agora , mas daqui para a frente não vai ter como responder pelas suas atitudes.
Custou-me ainda mais pela falta de franqueza e pelas histórias mirabolantes para justificarem o que não tem justificação.
Custou-me ainda mais pela resposta tão tipica. “Se eu já não tenho nada , agora tenho zero. Não volta a acontecer. Ajuda-me”.
Não se pode ajudar quem não se ajuda a si próprio e não tenho dúvidas que esta decisão foi a melhor ajuda que pude dar, mesmo que me tenha tornado a má da fita.

7 comentários:

LB disse...

Boa noite. Eu estava aqui a dar um passeio por diversos blogs até que vim parar a este e dei por mim a ler os textos com bastante interesse. Achei por bem dizer isto, como uma espécie de apresentação, antes de comentar este post em si.

A situação por que passou parece-me ser algo relativamente comum a pessoas que ocupam posições de chefia. Pelo menos, é algo que, mais tarde ou mais cedo, acaba por acontecer. E concordo consigo, tomou a melhor atitude.Era uma situação que só podia crescer num mau sentido. (Isto dito por alguém que possui uns míseros 19 anos, mas que já viu o suficiente para saber que coisas destas podem até tornar-se bastante perigosas.)

Boas noites!

Anónimo disse...

hoje foste a má da fita, amanhã serás a heroína. o que tu fizes-te estava mais que certo. se ele não se ajuda a si próprio, como tu o podes ajudar??

Não te culpes por nada, essa foi a melhor decisão, quando se trabalha em grupo tem de ser mesmo assim, temos de trabalhar todos para o mesmo, unidos. Não podem existir "Ovelhas negras..".

Bjokas** Gostei do blog, vou passar mais vezes..

visita-me*/

André Fomes disse...

Tá tudo Ana...sabes bem que eu também andei perto de ter de levar um "adeus" teu mas felizmente consegui dar a volta a tempo...não te culpes, porque infelizmente os culpados nestas merdas são os próprios e tou certo que com sorte ele ainda vai conseguir levantar a cabeça pois é boa pessoa e ainda vai ter argumentos para mais tarde voltar a trabalhar com a malta. Beijinhos e toca a continuar o bom trabalho na estrada.
FOMESSSSSSSSSSSSS

Cristiano Moreira disse...

Perdido no meio de blogs encontro uma mulher com atitudes e pulso fortes, é assim que se deve viver a vida!
Parabens pelo blog!

joão marinheiro disse...

Permita-me dizer que fizeste o certo nas altura certa. Só nós podemos caminhar pelas nossas próprias pernas...
Abraço com saudades das lides dos concertos...

espectador disse...

este blog já é p mim imprescindivel! liçoes de vida, pois entao!
continuaçao do bom trabalho
rita

Ana disse...

É curioso como este post suscitou tantos comentários e novos blogs para descobrir , com tempo , pois continuo atafulhada de trabalho , sem possibilidade de me perder por aqui como gostaria.
Até breve.